O Cliente de Agência de Propaganda

Citação

Arrumando os arquivos antigos no meu baú virtual (também conhecido por computador), acabei achando esta “pérola”, que deve ter chegado em minhas mãos na década de 90, quando eu ainda trabalhava em agência de propaganda.

Continua atual e vale a leitura!

Quem trabalha em agência de propaganda, principalmente criação ou atendimento, sabe como é difícil depender da aprovação do Cliente, seja por incompreensão, divergência de idéias, ou até estupidez mesmo.

O que ninguém sabe, entretanto, é que O Cliente Da Agência de Propaganda é assim o tempo todo. A culpa não é dele, é da natureza. Se serve de consolo para você, publicitário, muita gente por aí também tem que passar por estes desprazeres diariamente. Olha só:

No médico:

O Cliente Da Agência De Propaganda chega ao consultório do médico especialista e diz: “Doutor, arranque fora meu fígado. Ele tá doendo muito.”

O médico especialista o examina e diz que vai lhe receitar um remédio.

“De jeito nenhum, diz o Cliente Da Agência de Propaganda. Remédio demora. Quero que o meu problema seja resolvido de uma hora para outra”.

“Mas eu não posso resolver seu problema simplesmente extraindo seu fígado”, argumenta o médico especialista.

“Pode sim, retruca o Cliente Da Agência De Propaganda. Eu entendo desse negócio, ele é meu. E sou eu que estou pagando”.

Na boutique:

O Cliente Da Agência De Propaganda volta à loja chique do shopping, onde comprara uma calça. Ele deseja trocá-la por outro modelo e explica o motivo à vendedora balzaquiana gostosa: “Ninguém lá em casa gostou. Eles pediram outra opção.”

A vendedora balzaquiana gostosa traz outro modelo. “Olhe
este. É moderno, levemente ousado e dinâmico, não acha?”

O Cliente Da Agência De Propaganda veste a calça e sorri amarelo. Pede licença e sai. Volta depois, cabisbaixo. “Bem, o pessoal lá de casa gostou. Mas a
minha namorada fez umas ponderações. Ela disse que eu não posso arriscar
minha imagem de líder. Que tal algo menos inovador?”

A vendedora gostosa balzaquiana volta com uma calça jeans.

“Agora sim”, comemora o Cliente Da Agência De Propaganda. E sai novamente. Passam-se alguns minutos.

Finalmente o Cliente Da Agência De Propaganda reaparece na loja chique do shopping. Antes que a vendedora balzaquiana gostosa tenha tempo de perguntar qualquer coisa, ele dispara: “Todo mundo aprovou! Só tem uma pendenciazinha: eles criticaram o custo. Será que não dá para fazer uma bermuda com a calça e cortar 50% do valor?”

Na lanchonete:

O Cliente Da Agência De Propaganda senta-se à mesa e pede ao garçom com dez anos de casa: “Uma esfiha e um suco de laranja”.

O garçom com dez anos de casa anota e volta logo depois com o pedido do cliente, mas com um detalhe: o prato e o copo são do mesmo conjunto e combinam com o canudinho e o guardanapeiro.

O dono experiente da lanchonete acredita que uma boa
apresentação favorece a aprovação do Cliente Da Agência De Propaganda
quanto à comida. Assim que é servido, o Cliente Da Agência De Propaganda
examina bem e diz ao garçom com dez anos de casa: “Não foi bem assim que eu
imaginei a esfiha. Faz o seguinte: leva tudo de volta e me traz uma coxinha
e uma água mineral”.

O garçom com dez anos de casa recolhe tudo. Logo em
seguida, retorna com o novo pedido. O Cliente Da Agência De Propaganda faz cara ruim. “Não sei, essa coxinha está meio sem molho.” “Se o senhor quiser, podemos experimentar uma versão com mostarda e catchup pelo mesmo preço.”

“Pode ser. Aliás, acho que você deveria ter me alertado sobre isso. Vocês,
hein? Só pensam em faturar às minhas custas. Bom, já que está em cima da
hora, vamos fazer assim: eu não vou beber nada. Mas dá para fazer a coxinha
maior?”

“Tudo bem, senhor. Temos uma coxinha maior que custa um pouco mais e…”

“Ah, não! Quebra meu galho, vai. Você tem que negociar o preço dessa
coxinha maior com o dono do bar. Eu não tenho verba, não tenho, você não
entendeu?”

Na locadora de vídeo:

O Cliente Da Agência De Propaganda entra na locadora de vídeo e pede ao jovem atendente da locadora: “Eu gostaria de assistir a um bom filme. O que
você sugere?”

O jovem atendente da locadora faz, então, breves perguntas a respeito das preferências do Cliente Da Agência De Propaganda, para compreender melhor seus desejos e necessidades. A conclusão é que o Cliente Da Agência De Propaganda quer um filme de aventura com muita ação, mas que tenha também um pouco de romance, sem cenas picantes, uma boa dose de comédia e uma pitada de ficção científica, com atores famosos, novos talentos, um bom diretor.

E que possa ser indicado para toda a família. Afinal, o Cliente Da Agência De Propaganda quer agradar todo mundo. O jovem atendente da locadora sugere De Volta para o Futuro. “Me conta o filme. Todinho.” – pede o Cliente Da Agência De Propaganda.

Após contar todo o filme, o jovem atendente da locadora já está entregando a fita, devidamente embalada na sacolinha. “E então? Muito bom, hein? Exatamente o que senhor pediu.” O Cliente Da Agência De Propaganda pensa um pouco e responde: “Eu quase gostei. Talvez fosse melhor se o jovem Marty seguisse o conselho do Dr.. Brown e não salvasse o próprio pai do atropelamento, para não alterar o futuro. Faz o seguinte: me dá aí As Aventuras de Simbad, que todo mundo já viu e gostou. Assim eu não corro risco.”

Na pizzaria:

O Cliente Da Agência De Propaganda entra numa pizzaria e diz à moça
balconista da pizzaria: “Moça, há pouco eu pedi por telefone duas pizzas:
uma de aliche e outra de calabreza. Eu gostaria de devolvê-las.”

“Porquê, senhor, algum problema?” “Veja bem, senhorita: eu queria uma pizza, mas não dava conta de comê-la sozinho. Mesmo assim encomendei uma a vocês, apenas para mostrá-la à minha família, tentando convencê-los a dividir a pizza e o pagamento comigo. Entretanto, havia um problema: minha mulher gosta de aliche, mas meu filho prefere calabreza. Então pedi uma de cada.

Mesmo aprovando a iniciativa e elogiando o aroma das pizzas, infelizmente eles estavam sem dinheiro e não puderam concretizar esta parceria comigo. Sendo assim, eu também fiquei sem comer a pizza. Por isso quero devolvê-las.”

“Senhor, não podemos aceitá-las de volta. O senhor pediu…”

“Pedi, mas não usei, quero dizer, não comi. E como não comi, não acho que tenho que pagar. Mas quero deixar bem claro que elas me parecem de excelente qualidade e que, assim que eu tiver recursos disponíveis, entrarei em contato com vocês e encomendarei novamente essas belíssimas pizzas de aliche e calabreza.”

Outra versão da Pizzaria:

Um possível cliente liga pra pedir uma pizza. Do que não se sabe, ele só a quer porque todo mundo que ele conhece tem uma. E avisa que pediu a mesma pizza pra 5 outras pizzarias e só pagará a que gostar mais;

No meio do trabalho, ele pede pra você mandar uma prévia de como ela está para sua aprovação. Depois de receber a pré-pizza, pede “uma alteraçãozinha”, substituindo a mussarela amarela por verde, porque ele gosta mais de verde. Isso faz com que você tenha de jogar a pizza antiga fora e produzir uma nova que, além de dar mais trabalho, ficará de gosto duvidoso;

O cliente pede 500 pizzas a serem feitas em 15 minutos, pois ele está com uma festa para começar e só lembrou de ligar agora. Você destaca seus melhores pizzaiolos pra atender a esse pedido urgente e deixa as pizzas dos outros de lado, o que faz com que todos eles reclamem do atraso. Após produzir quase todas as pizzas, ele liga avisando que não precisa mais de pressa porque errou o prazo. Na verdade, você tinha 4 horas;

Outro pede uma pizza incrementada e não entende como se pode cobrar tão caro por ela, sendo que o boteco da esquina faz por bem menos. Ou diz que o sobrinho faz melhor por um décimo do preço que você pede (ele usa uma pizza semi-pronta comprada no Carrefour);

O cliente pede todos os ingredientes do seu estoque, pois acha que isso fará a pizza mais atrativa. Mesmo assim você faz um bom trabalho, mas ele reclama que não tem garfo e faca em casa, por isso não consegue comê-la.

Na concessionária:

“Por favor – pede o Cliente Da Agência De Propaganda ao alinhado vendedor de carros da agência de veículos semi-novos – eu gostaria de comprar um carro que deixasse todo mundo encantado comigo.”

“Pois não, senhor. Eu recomendo este BMW aqui. Ele foi projetado pelos melhores designers, desenvolvido pelos melhores engenheiros e produzido por uma das melhores montadoras do mundo.”

“Perfeito. Quanto?”

“Custa a bagatela de X.”

“Como? – começou a bufar o Cliente Da Agência De Propaganda – Você está pensando que dinheiro é capim? Vamos dar um jeito de cortar estes custos. Primeiro: os faróis. Para quê quatro? Bastam dois. E estes pneus largos? Com pneus mais finos o carro anda do mesmo jeito. Bancos de couro: qual o problema com o tecido comum? Pode trocar. Deixa eu ver o quê mais. Ah, o motor. Troque-o por um 1.0, que é mais econômico. E já que vai trocar o motor, tira os freios ABS, agora não precisa mais deles. Vidro, retrovisor e trava elétricos são caprichos à toa. Pode ser tudo manual mesmo. E em vez de pintura metálica, o carro pode ser branco, que está na moda. Anotou tudo? E não se esqueça de aumentar o logotipo BMW na frente e atrás. Afinal de contas, todo mundo tem que ver que é um BMW, não é mesmo?”

Ligando de volta para a pizzaria:

“Alô. Oi, aqui é o Cliente que devolveu duas pizzas outro dia. Olha, eu arranjei uns amigos para dividir a conta comigo. Então, pode mandar entregar aquele pedido. Ah, só uma alteraçãozinha: dessa vez mande uma Quatro Queijos e a outra Portuguesa. E eu quero ver tudo antes de mostrar para eles”.